PALAVRA DA ARTISTA


“Quando acordei hoje de manhã eu sabia quem era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então.”

Alice no País das Maravilhas, Lewis Carrol


Meu primeiro encontro com o barro foi quase acidental, depois de uma longa trajetória de trabalho com teatro e psicologia. Cheguei a um ateliê de cerâmica e ali começaria a história que já dura vinte e cinco anos: naquele primeiro momento me tornei parte do barro. Como num passe de mágica, retomei, por meio do barro, um encanto com o mundo… não diz a lenda que somos um sopro divino, que somos feitos de barro e divinamente encantados?

Pouco a pouco, as figuras foram surgindo de forma tridimensional e quando vi estava mergulhada na exploração dos diversos materiais, na pesquisa dos óxidos, esmaltes, pigmentos, barros e diferentes tipos de queima que compõem a orquestração misteriosa da arte cerâmica.

Em seguida vieram as placas, caixinhas, encaixes, tampas, bicos, o trabalho no torno… então as distorções nos potes que foram se tornando personagens; esticar, puxar, alisar… começaram a aparecer as formas bizarras dos objetos em minhas mãos. Descobri no barro um material que ganha vida, possuindo sua própria forma de existir.

Em meu trabalho, exploro o movimento e a plasticidade da argila. Toda a alquimia do processo do barro se torna um veículo para a expressão do mundo mutante em que vivemos.

Na minha trajetória trabalhando como terapeuta e atriz, testemunhei muitas histórias pessoais, que passaram a ser expressas no meu trabalho com a cerâmica.

Desde o início, mergulhei no mundo do feminino. Fui compondo cenas, sugerindo histórias e acontecimentos, num eterno girar. As histórias da tradição oral, com sua riqueza narrativa, também sempre serviram como inspiração e me nortearam nesse mundo complexo e surpreendente da arte cerâmica.

Dizem que Deus fez o mundo redondo para ninguém se perder…

Mergulho no símbolo do círculo, presente em todas as culturas, em todas as épocas, nos mitos, religiões, arquitetura, nos sonhos, nas mandalas, como uma imagem arquetípica interior, do Homem que aspira a unificar-se. Procuro desenvolver o meu trabalho no mesmo sentido; com circularidade, num permanente ir e vir.